O trem chegou fumegando e apitando no final de janeiro de 1954 conduzido pelo maquinista José Mariano e com as caldeiras alimentadas pelo foguista Américo Lopes. Foi dia de festa. Uma multidão de quatro mil pessoas foi ver o trem chegar. Todos guardaram o dia na memória. Um dos poucos a guardar uma imagem mais nítida foi o Sr. Kenji Ueta, que estava por toda a parte registrando o acontecimento com sua máquina fotográfica. O Sr. Kenji Ueta morava na Rua Tomé de Souza, na quadra defronte a que o garoto morava. Na frente da casa do garoto, na Rua Mem de Sá, morava o irmão do Sr. Kenji, Sr. Yukio Ueta. Nos dias seguintes à chegada o trem teve importância para a família: os apitos orientavam a velha para as tarefas diárias.

“O trem matou o Tupi!”

O trem entrou na vida do garoto por dois episódios. O primeiro foi a morte de Tupi em 1955. Ele era o cachorro da família. Um cachorro bravo que gostava do garoto. Que um dia provocou o animal. O cão mordeu a cabeça do menino, jorrando sangue, assustando o avô, que o levou para o hospital, de onde o garoto voltou com a cabeça cheia de bandagens. Assustado com o estrago, o cão desapareceu. Apesar da mordida, o avô e o menino sentiram falta de Tupi. Ele não era apenas o elo do trio amigo, mas também o fiel cão de guarda, escudeiro da família. O velho procurou o cão nas ruas próximas e, depois, nos lugares distantes. Finalmente o encontrou, ao lado da linha do trem. Estava morto.

Um funcionário da ferrovia viu o velho descer de sua carroça, triste, e disse:

“É sempre assim.”

O velho reagiu ríspido:

“O que é sempre assim, moço?”

“Os cachorros se assustam no meio de tantos vagões e tentam sair quando as composições se movimentam. E morrem.”

Ele disse ainda que Tupi não foi o primeiro. E nem seria o último.

O velho chorou a morte de Tupi. E providenciou enterro digno para o animal, nas bordas do bosque, que ficava perto de sua casa. O menino ficou triste. E nunca mais teve outro cão como Tupi. O segundo episódio foi em 1960, quando a avó, o avô, a tia e o garoto fizeram uma viagem para Aparecida do Norte. Eles foram de trem até a Estação da Luz em São Paulo. Viagem de segunda classe, em vagões com bancos de madeira. Foram exatamente 24 horas para percorrer 750 quilômetros de uma ferrovia sinuosa. Os bancos dos vagões de primeira classe eram estofados e proporcionavam um sono menos turbulento. Havia vagão-restaurante e na hora do almoço e do jantar os garçons passavam pelos corredores equilibrando pratos feitos de comida que ofereciam aos passageiros. Depois eles passavam recolhendo pratos e talheres. Como não havia parada no caminho para descer e se alimentar, a alternativa àquele serviço era tirar das sacolas alimentos previamente preparados para a viagem, como sanduíches, bolos e frutas, digeridos com sucos levados em garrafas.

Foi uma longa viagem que começou divertida e não demorou para ficar tediosa. O único passatempo no interior nos vagões era ler revista – havia sempre um sujeito passando para lá e para cá com várias delas, para vender.

O garoto olhou ao longe através da janela e perguntou:

“Por que aquelas montanhas são azuis?”

“Porque elas estão longe.”

“As coisas mudam de cor quando ficam longe?’

“Algumas, sim.”

“Por quê?”

“Não sei.”

A avó também se cansava de responder perguntas e ela não tinha respostas para todas. Então, o silêncio voltava a reinar, quebrado apenas pelo ruído tedioso e incansável das rodas sobre os trilhos. A monotonia na primeira parte da viagem foi rompida ao chegar a Londrina. A alguns quilômetros da cidade já era visível a pequena metrópole em que despontavam edifícios, classificados de arranha-céus. E quando o trem chegou à estação, ela impressionou o garoto. Era uma réplica da estação de Londres e maior que a de Maringá. Foi a primeira vez que ele viu Londrina.

Written by edilsonpereira