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O bebê engatinhou no chão frio e vermelho de cimento da cozinha e de repente se sentiu confiante e tentou mais uma vez ficar em pé. Ele levantou a mão direita, depois a esquerda e apoiou o corpo nas coxas e o alçou na posição vertical. O corpo tremeu ligeiramente e se equilibrou hesitante como nas outras vezes. E também como nas outras vezes ele arriscou um passo e depois outro. Ao contrário das outras vezes, ele não caiu. Ele foi trôpego e feliz encurtando cada vez mais a distância entre a mesa e o fogão a lenha. Andar era uma coisa maravilhosa, uma aventura fascinante. O torso balançou mas ele não caiu.

A tia quando o viu gritou:

“O nenê está andando!”

Ele se assustou, perdeu o equilíbrio e deu mais dois passos para se agarrar na saia da avó e não cair. Olhou para cima e ficou ainda mais assustado com a euforia da avó e da tia, que batiam palmas. A cena ficou na memória por muitos anos. Como trailer de filme muitas vezes retornava e ele ria de se lembrar de algo tão remoto. Um dia a cena foi embora e ele ficou com a lembrança dela na memória. Ou seja, não a recordava como muito tempo a recordou mas sabia que existiu e como foi. Agora não era mais trailer, era o registro dele. Quando ficou adulto ele se espantou por recordar a cena com tanta clareza e não recordar quase nada de um episódio que sumiu em sua história. O dos suspensórios.

“O que aconteceu com os meus suspensórios?”

A avó não sabia. Ou desconfiava o que deveria ter acontecido.

“Acho que eles ficaram velhos e eu joguei fora!”

Não era certeza. Era dedução porque não havia mais sinal dos suspensórios. Mas ele tinha certeza de que por um tempo usou suspensórios, assim como o pijama de dormir era macacão de flanela nos dias frios e de algodão branco nos dias quentes. E sabia também que o corte de seu cabelo era um estilo chamado “bodinho”, que se se resumia a uma touceira de cabelo em forma de pequena meia lua no alto da cabeça, um pouco acima da testa, enquanto o resto da cabeça era raspado, um estilo que ele nunca deixou de achar ridículo, para não dizer humilhante.

A avó disse:

“Não sei porque pergunta pelos suspensórios! Você não gostava deles.”

Ele não sabia mais se gostava ou não dos suspensórios. A velha não gostava que ele ficasse com os dois polegares puxando os suspensórios para a frente, porque o elástico relaxava e não segurava mais as calças. Mas os suspensórios comprados no Bazar Paris eram elegantes, coloridos. Os primeiros suspensórios ele esquecia nunca, eram de pano e faziam parte da calça. Foi com esta indumentária que ele esteve no Foto Maringá na tarde de 11 de março de 1955 para tirar a foto de seus três anos de existência. Um garoto limpo, altivo, belo e tímido, com sapatos pretos, meias brancas, calça que começava cinco dedos acima do umbigo e terminava dois dedos abaixo dos joelhos. Camisa branca de manga comprida e os dois detalhes inesquecíveis: cabelo “bodinho” e os suspensórios negros. A foto era o testemunho de que um dia eles existiram.

Written by edilsonpereira