santaclaus1

Eu caminhava com a minha cachorra chamada Bela pela ciclovia do Estribo Ahu, observando a velha linha férrea ao lado da escola que nasceu no terreno que um dia foi o campo de futebol do União, quando um senhor com camiseta negra e cão fila se emparelhou. Ele olhou a Bela e disse:

“Cocker Spaniel. Este cão é agitado.”

Eu disse que sim. Ele disse que não era para eu me preocupar com o seu fila, que era dócil, embora de aparência assustadora. Os cães não se estranharam e a conversa girou sobre comportamento canino. Eu percebi que o homem, às vezes, me observava de forma curiosa, mas não fiz nenhum comentário.

Como eu não disse nada, o homem tratou de entrar no assunto:

“Me desculpe, eu venho observando o senhor com muita atenção.”

Eu respondi que tinha percebido alguma coisa diferente e que não me achava merecedor de nenhuma observação em especial. Afinal de contas, pensei com meus botões, mas não disse: as minhas vacinas estão em dia. Mas o homem não leu meus pensamentos e sapecou:

“Estou precisando de três Papais Noéis para trabalhar em shoppings. Salário em torno de 2.500. Quando o senhor apontou na ciclovia com a sua cachorra, na hora eu pensei que tinha encontrado o homem ideal para ser um Papai Noel. A sua cara encaixa perfeitamente no perfil de Papai Noel de minha agência. O senhor, por acaso, não está interessado?”

Eu fiquei abismado. Primeiro, eu não sabia que tinha cara de Papai Noel. Segundo, eu não sabia da existência de uma agência de Papai Noel. Terceiro, não deixava de ser uma surpresa receber à queima roupa em plena ciclovia uma oferta de trabalho. Para ser sincero, eu encaro toda oferta de trabalho remunerado como um grande elogio. Seja qual for, ainda que não seja do meu ramo. O trabalho é gratificante, necessário e faz falta, lamentavelmente, para muitos pais de família. Por isso, toda oferta de trabalho é tão agradável quanto um elogio. É algo como se uma loira linda como a Julie Christie ou uma morena do tipo da Ava Gardner ou da Sofia Loren chegasse cheia de charme e dissesse:

“O senhor é bonitão. E eu estou de olho no senhor!”

A gente fica todo fofo. E animado.

Mas os horários do Papai Noel eram incompatíveis com o meu trabalho de jornalista e não vou incluir mais esta experiência no currículo. Agradeci ao homem que meio desapontado foi em frente com seu cão fila, enquanto eu fiquei com aquele sorriso de felicidade meio besta no rosto. Papai Noel é um super-herói. Principalmente da criançada. Seria bacana ser herói por algum tempo, ainda mais remunerado. Eu sei como sobrevivem alguns super-heróis, como o Super Homem – jornalista no dia-a-dia e herói nas horas vagas ou de extrema necessidade. Batman é um milionário e não trabalha. O Homem Aranha é repórter fotográfico. O Capitão América é militar. O Demolidor é advogado. Quase todos os heróis têm uma profissão – heroísmo para eles é uma espécie de free lancer comunitário.

Eu também tive minha curiosidade satisfeita, porque desde criança eu me perguntava o que Papai Noel fazia além de sair por aí montado num trenó puxado por renas, qual o seu vínculo empregatício, quem financiava aquela esta festa que ele faz no Natal. Agora eu sei: Papai Noel é um trabalhador, como qualquer outro, cujos interesses são administrados por uma agência. Coitado, ele também é uma engrenagem no sistema. Tão simples.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 14 de março de 2013.

Written by edilsonpereira