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 A teoria de Aristeu é a seguinte:

“As praias paranaenses não são feias. Feio é o que alguns sujeitos fazem com as praias paranaenses.”

Eu não sei se ele está correto em cem por cento, mas acho que ele tem alguma razão. Eu conheço Bombinhas, gosto do lugar, mas acho Guaratuba bacana. Quando eu disse isso o Cahuê Miranda quase teve um troço. Claro que para se chegar a esta conclusão é necessário visitar as duas cidades fora de temporada. Na temporada, o bicho pega no litoral paranaense. Aparecem uns tipos, principalmente nesta época do ano, que desmoralizam até a Costa Azul (Cote D’Azur). Ainda que sejam 20 por cento dos veranistas, no máximo, o alvoroço que provocam é tamanho, que deixa marcas na temporada. Eu presenciei uma cena nos primeiros dias de dezembro que reforça a tese. A coisa começou assim. Levantei de manhã, o dia estava bonito e pensei:

“Vou dar um passeio na praia.”

Passeio na praia é em câmera lenta. Porque o sujeito que vai à praia não está com pressa. Eu fui andando em câmera lenta. Sem pressa. Olhando os shortinhos das meninas e pensando como as convenções são hipócritas: a menos de 100 quilômetros de Curitiba, as garotas mostram quase tudo e se na capital alguém botar o olho em metade do que está vendo no litoral, o pau come. Convenções são convenções, mas algumas não convencem. E como é gostoso olhar mulher de shortinho, biquininho, de tanga, todas estas coisas. Delicia. O sujeito que gosta do material toma verdadeira overdose. Eu estava feliz vendo aquilo. Todas as garotas felizes e eu feliz por vê-las como quase vieram ao mundo. Mas como digo: nada é perfeito. Vai acontecer alguma coisa para estragar. E aconteceu.

Estou caminhando na faixa agradável entre mar e areia molhada, com o mar vindo lamber os meus pés, quando eu olho à minha direita e vejo a cena, o tipo de cena que esculhamba de vez por todas com o litoral paranaense. Eram dez e meia. Um caminhão cheio de gente estacionou na Avenida Atlântica. E todo mundo desceu e foi correndo para a praia, como um ataque sioux ao Forte Apache.

Eu pensei:

“O mar está perdido.”

Tinha de tudo. Gente com maiô, gente com biquini, mulher com bermuda e camiseta por cima, homem descalço com camisa e calça, tinha até um tiozão de sapatão (bota, quero dizer), criança com câmera de pneu pensando que era boia, um sujeito com meia prancha de isopor, porque a metade ficou pelo caminho. Eu fiquei assombrado:

“É um filme de Federico Fellini.”

Bom que fosse. Ou então do magistral Ettore Scola. Que é mais escolado quando o assunto é farofeiro. Enquanto um comando farofeiro atacava o mar, o pessoal da retaguarda, os barrigudos da intendência, tratava de garantir o suprimento para o recuo no fim da batalha. Dois sujeitos tiraram dois cavaletes e colocaram sobre a areia dois metros de distância um do outro. Em seguida outros dois descarregaram uma porta do caminhão e colocaram sobre os cavaletes. Quando vi, não me contive:

“Agora eu fico até o fim para ver o que vai acontecer.”

Então eu tive a revelação: eles improvisavam uma mesa na praia. Estava em gestação a ópera bufa chamada o Banquete dos Farofeiros. Dito e feito. Os quatro sujeitos foram tirando caixas de isopor com tudo que era tipo de comida e bebida. De frango assado na véspera a farofa e garrafas de pinga e sacos de limão. Tinha bacia com salada de tomate com cebola e um saco de pão francês.

Um homem grande e barrigudo gritou:

“Quem é o rei da linguiça?”

Como o rei da linguiça não apareceu para reivindicar o trono, ele decretou:

“O rei da linguiça sou eu.”

Ele montou uma churrasqueira artesanal, jogou madeira, álcool, riscou um palito e aquilo começou a queimar. Sobre grelha espalhou duas dezenas de linguiça. E comandou a operação. Era coisa de profissional do improviso. Os caras da mesa estavam adiantados com os coquetéis à base de aguardente de cana e limão, que experimentavam para conferir o sabor e se estavam adequados para o consumo. Em meia hora todos estavam bêbados e o cara da linguiça, com a bacia cheia, achou que poderia dar um toque sonoro ao banquete entoando Bob Marley, em inglês:

“Say I remember when we used to sit. In a government yard in Trenchtown. Observing the hypocrites.”

Ele me olhou e eu pensei:

“Será que ele me acha hipócrita?”

Suei frio. Minha salvação veio do mar. A horda molhada, incluindo uma senhora de cinquenta anos com dois peitos que pareciam mais loucos que dois hippies em Woodstock, balançando mais que dançarinos de twist, olhou para a mesa posta à beira da praia e alguém gritou:

“O rango tá na mesa.”

Foi um tsunami humano. Duas dezenas de pessoas se reuniram ao redor da mesa de porta e trucidaram o que tinha para trucidar, beberam o que tinha para beber. Aquilo durou mais de uma hora. Eu olhei de longe feito nobre babaca. Os caras que cuidaram da retaguarda e que agora estavam bêbados gritaram:

“Mar, aqui vamos nós.”

Eu olhei o mar para ver se ele batia em retirada. Mas o mar aguentou firme a nova invasão. O homem grande e barrigudo caiu no mar e teve dificuldades para se levantar. Quando ele conseguiu, voltou com sofreguidão, sentou na areia, pegou um óculos escuros que estava perto de um chapéu de pano, colocou no rosto e ficou olhando pra mim com uma cara de desapontado. Eu achei melhor cair fora.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 9 de janeiro de 2015.

Written by edilsonpereira