O Grupo Escolar Osvaldo Cruz era de madeira. O pátio virava lamaçal nos dias de chuva. Como o resto da cidade sem pavimento na maioria das ruas. As principais do centro tinham paralelepípedos. Que as pessoas enrolavam a língua para falar. Chamavam bloco de pedra. Fácil. Em dias de chuva os guarda-pós brancos de alunos e professores ficavam manchados de vermelho para desespero de quem lavava. Era uma lembrança de Celsius Nobre Júnior. Outra era o medo da diretora. Dona Maria José era o cão. E usava óculos de gato.

 Ela apoiou Vanor Henriques, da UDN. Ele perdeu a eleição e ela sumiu no ano seguinte. Era o que sussurravam na escola. Disseram que voltou para Curitiba. Celsius não a viu. Prefeito era o JP. Promotor que veio de Mandaguari. Gostava de futebol e de cidade bonita. Ele começou a asfaltar as ruas. Mas isto não tinha importância. Em 1961 Celsius ia reprovar o segundo ano no Osvaldo Cruz. De novo. Não estava bem. Crise em casa. E ainda era apaixonado por Marilda Marinês Montez. Uma menina paraguaia que tocava harpa e cantava “Adelita”.

Em julho, Dona Gertrudes Nobre decidiu salvar o ano. Conversou com Dona Tomires e Celsius mudou da tarde para manhã. Turma de Dona Dulce. Ele não viu mais Marilda Marinês Montez. A lindinha. A fofa. A Adelita de harpa. Dona Dulce resgatou o garoto. Ele tirou notas boas. Ganhou direito de cantar música em ocasião festiva cujo motivo ele não lembra. Talvez aniversário de alguém. Talvez Dia dos Professores. Ela chamou Celsius e mais dois notas boas. A morena Sandra, xodó dos garotos, tocou “Torna a Sorriento” no Todeschini vermelho de 80 baixos.

Celsius pensou na paraguaia Marilda e cantou “Chalana”. Com mãos nos olhos para não encarar a plateia. Tinha vergonha.

Voz abafada pelas mãos no rosto:

“Lá vai uma chalana, bem longe se vai. Navegando no remanso do rio Paraguai”.

Era a chalana levando Marilda embora. Nunca uma chalana foi tão desajeitada pelo rio Paraguai como naquela manhã. Depois de cantar, voltou orgulhoso para a carteira. Foi a primeira aparição artistica pública. Achou que tinha futuro no rádio cantando “Chalana”. Teria não fosse Daniel Coelho, Dany Le Lapin, que preferia ser Danny The Rabbit, ir na frente e cantar “The twist”. Ele atacou de Chubby Checker. Celsius não sabia o que era twist. Menos ainda quem era Chubby Checker. Coelho parecia fauno alegre saltitando e rebolando para garotas indefesas. Tremelicava. Os pés retorciam. Quando terminou, elas aplaudiram frenéticas. Foi um arraso. Eles tinham nove anos. Como conheciam aquilo? De que cartola Coelho tirou a música? Um mistério. Celsius chegou em casa humilhado e ofendido. Ele se achava um lorpa. Confessou para a mãe:

“Estava bem até um depravado dançar o twist na minha cara. Morri de vergonha. E as meninas gostaram do twist”.

A mãe não sabia o que era. Celsius também não antes daquela manhã. Twist era elétrico, dançante e contagiava as garotas. Por isso Coelho foi aplaudido. A bela Sandra com o Todeschini de 80 baixos ficou chateada. O twist era quente. A sanfona esfriou. Descobrir o twist foi um baque para Celsius. Mais que o rock’n roll. Quando ouviu Elvis Presley cantar “Baby i don’t care”, gostou. Pensou que era Roy Rogers. Um cara-de-pau do Velho Oeste. Nada. Celsius teve tempo de corrigir o equívoco. Com Chubby Checker foi rápido demais. Normal. Nos anos 60 os garotos ficaram pirados com os ritmos frenéticos. Calypso, chá-chá-chá, twist, rock’n’roll, iê-iê-iê e outros. Os pais pararam de colocar filhos para aprender tocar sanfona. Celsius não cantou mais “Chalana”. Nem escondido.

Publicado originalmente em O Diário do Norte do Paraná no dia 11 de janeiro de 2018.

Written by edilsonpereira