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Assim que começou o ano de 1961, minha prima Maria José entrou correndo em casa com um papel na mão, gritando:

“Olha, que maravilha!”

Ela era criança e se admirava com o fato de o número no papel não perder o sentido, mesmo de cabeça para baixo.

“Olha só”, mostrava virando o papel, com um grande sorriso.

“E daí?”

Ela respondeu:

“Ele continua o mesmo. Não é maravilhoso?”

“Sim, é”, o que se vai dizer?

Em seguida, saiu correndo mostrar a novidade a outra pessoa.

Esta é uma imagem de 1961. Há outras, da professora Dulce, do sujeito dançando e do terreno em Brasília. Aquele ano entrara repetente no segundo ano primário e a turma da tarde não era das melhores. Eu gostava de uma menina chamada Marilda e de fazer trabalhos artesanais. Mas as notas estavam lá embaixo. E minha avó, prevendo o pior, intercedeu junto à professora Tomires de Carvalho, para me mudar de turma. Ela me colocou em uma turma da manhã, da dona Dulce, mãe do Oscar. Era uma turma boa. Tinha o Orvile, o Luiz Otávio, a Sandra e o Uelson, um sujeito que no aniversário da professora foi lá na frente e começou a ter tremeliques. E o pessoal achou aquilo moderno. Foi a primeira vez que ouvi Tutti Frutti ou o tal do rock’n’roll. Antes disso me lembro de ter ouvido Elvis Presley, mas quando minha avó perguntou quem era, eu não sabia.

“Você não sabe ou não quer falar?”

Então respondi:

“Está bem, é o Roy Rogers.”

Tenho uma teoria que pode ser contestada, tudo bem: escola é professor, nada mais. Não é prédio bonito, nem madame autoritária. Existem problemas, sempre existiram. E o mais elementar é o salário. Mas em 1961, os professores também reclamavam do salário baixo. Digo isso não em crítica a professores de hoje, mas em homenagem a alguns professores como a dona Dulce, com quem aprendi muitas lições. No fim do ano, ela homenageou os melhores alunos da sala, com a elegância de me incluir entre eles. E ainda me deu de presente um livro dos Irmãos Grimm, que li numa tacada. É claro que ela não me corrigiu totalmente: um dia me disse que estava triste, porque a coleção Diversões Juvenis do Oscar estava incompleta. Faltava um exemplar. Eu disse que dava um jeito, perguntei o número, e consegui, deixando-a feliz. Está certo que o Dante, um vizinho e amigo, ficou um tempo perguntando. “Caramba, rapaz, sumiu um número de minha coleção de Diversões Juvenis.” Para não ficar com a consciência pesada, eu deixei com ele um gibi do Cavaleiro Negro que eu tinha. Ele gostou, mas não entendeu.

A minha avó também gostou muito de dona Dulce. E agradeceu a seu modo. Foi no galinheiro de casa, pegou os três melhores frangos e pediu para eu levar para a professora. Coloquei os frangos no ombro, morrendo de vergonha e fui lá na Avenida São Paulo, quase em frente ao hospital do Pasquinelli, que ainda era de madeira, entregar os três frangos.

Bem, ainda neste ano preenchi um cupom na revista Grande Hotel de minha prima mais velha, um cupom que dava direito a um sorteio de um terreno em Brasília. Um tempo depois recebo a resposta, ganhei a coisa. E deveria pagar umas taxas para ter um pedaço de Brasília. Claro, tanto aquilo pode ter sido real, como um trambique. Minha avó me perguntou:

“E aí, vamos ficar com o terreno de Brasília?”

Não fazia o menor sentido. O ano chegava ao fim e aquilo, como o ano escrito no papel, não tinha pé, nem cabeça.

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 3 de fevereiro de 2004.

Written by edilsonpereira