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A quarentena por conta do Coronavírus me impôs uma rotina diária de filmes da qual eu não me recordo nos últimos quarenta anos. Acho que só em 1979, quando vi cerca de 150 filmes, porque quase todos os dias passava pelo Cine Bijou, na Praça Roosevelt ou no Belas Artes, na Consolação, antes de ir trabalhar na Agência Folhas. Atualmente estou vendo uma média de três filmes por dia. E sem frescura. Quer dizer, não me fixo nos grandes filmes. O que cai na rede é peixe. O importante é passar o tempo e não entrar em pânico. Revi nestes dias muitos filmes que não canso de ver como “Blade Runner”, entre outros. E também bobagens que servem para divertir ou relembrar tempos de criança, como “John Carter – Entre dois mundos”, baseado em criação de Edgar Rice Burroughs. Lynn Collins é uma delícia de garota. Pena que é marciana. Agora de manhã vi na Netflix “Filmando Casablanca” sobre o diretor Michael Curtiz (Mihaly Kertesz) e os problemas que enfrentou durante a realização deste clássico do cinema americano.

O filme enche a bola de Curtiz, mas ele foi um diretor mediano em Hollywood. O cara fez um clássico às pressas e a contragosto. Por acaso. Primeiro, o diretor que os produtores queriam era William Wyler. Curtiz foi chamado porque era a quem Jack Warner recorria nas emergências. E aí o diretor chega e diz que queria Ronald Reagan no papel de Rick. Não rolou porque Reagan se alistou para ir a guerra. O papel ficou para Humphrey Bogart que a partir deste filme pulou de categoria. Foi dos filmes B para as produções principais. Curtiz achava Bogart sem graça. E assim a coisa foi indo na base do acaso e do improviso, a toque de caixa. Resumindo, Curtiz não era genial como Elia Kazan (Ilías Kazantzóglu), embora tenha feito 50 filmes na Europa e 100 nos Estados Unidos. Já Kazan entrou para a história do cinema por revelar Marlon Brando e James Dean, além de dirigir clássicos como “Sindicato de Ladrões”, “Um bonde chamado desejo”, “Vidas amargas”, “Clamor do sexo” e “Boneca de carne”. Agora, vamos considerar também que Curtiz não entrou para a história do cinema como um delator infame, pecha que acompanhou Kazan até o fim da vida por entregar colegas de esquerda no auge do Mccarthyismo.

Eu diria que Curtiz ganhou na Mega Sena com “Casablanca”. Sem este filme seria mais um diretor competente em Hollywood na chamada Era de Ouro do cinema americano. As filmagens de “Casablanca” duraram pouco menos de três meses. E foram num ritmo tão apressado e impreciso que até o fim Ingrid Bergman não sabia por quem estava apaixonada e com quem ia ficar. Na realidade, até o fim nem o próprio Curtiz sabia. Tanto que quando ela perguntou para ele, ele disse para ela manter aquele ar que quem não tinha certeza. No final ele rodou a cena que passou para a história. Ela amava Rick, mas foi embora com Victor Laszlo, o marido que era um guerrilheiro romântico. Terminada a fita, em 26 de novembro de 1942, em plena guerra, estreava em Nova York. E por causa da guerra, o filme demorou a ser exibido na Europa. Na Itália, estreou em 1946, na França, em 1947, na Áustria, em 1948, e na Alemanha Ocidental, em 1952, com cortes. Na Alemanha Oriental, somente em 1983 e ainda assim na televisão. Os brasileiros viram o filme em 7 de dezembro de 1942. onze dias depois da estreia em Nova York. “Casablanca” foi indicado a oito Oscars e levou três estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Com ele Curtiz ganhou o único Oscar da carreira.

Pois bem, o filme da Netflix sobre “Casablanca”, como disse no começo, foca Curtiz e os problemas para fazer a fita. Principalmente com um tal de Johnson, representante do governo americano que além de querer filme de propaganda tentou estuprar no corredor do estúdio a filha do diretor, com a qual Curtiz não se dava porque abandonou a mãe dela em Nova York e com quem nunca se daria. No meio disso tudo, exilados tentam descolar papéis e o diretor tenta tirar a irmã da Hungria, invadida pelos nazistas. A irmã, coitada, foi parar em Auschwitz com a família. Só ela saiu viva. Tem uma cena em que Curtiz enraba uma dona em seu escritório que colabora docilmente certamente na esperança de ser recompensada com algum papel.

Se alguém espera ver Bogart e Ingrid Bergman, desista. Aparecem de relance. O filme não é deles. É de Curtiz. Mas é divertida uma rápida cena em que Bogart anda pelo set com um tamanco de dez centímetros porque era baixinho e tinha que ficar mais alto para filmar. Melhor sorte teve Conrad Veidt e Dooley Wilson, o pianista negro. Interessante ver o trabalho dos roteiristas gêmeos Julius e Philip Epstein, bolando cenas no próprio set. O roteiro foi considerado o melhor da história do cinema. A cena dos anões também é divertida.

Enfim, para rechear uma quarentena, o filme vai bem. Até porque é produção recente. Mas eu temi pelo pior quando na abertura do filme entre cenas vintage me aparece o braço de um toca-discos caindo sobre os sulcos de um Long Play. Pensei na hora: “Caralho! Fodeu”. O filme é de 1942 e o chamado disco de vinil ou Long Play foi criado no dia 21 de junho de 1948 pelo engenheiro Peter Carl Goldmark, que trabalhava para a Columbia Records, para substituir os velhos discos de 78 rpm. Portanto, ele não deveria estar lá. Mas depois disso, a coisa rolou até bem.

 
Written by edilsonpereira