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Um sujeito que passa em cinco disciplinas sem precisar de exames finais, parece que teve um bom ano escolar. Principalmente se as duas matérias restantes são português na qual ele foi bem no ano anterior e na outra precisava nota três. As aparências enganam. A semana reservada para revisão das aulas não teve revisão porque a turma foi suspensa pelo diretor do ginásio. O amigo Bitous encarou a professora de francês e disse que sonhava em penetrá-la. E para complicar, ele precisava seis e setenta e cinco em português. As coisas não estavam fáceis. E realmente não foram.

“Eu fiquei para segunda época.”

Ele tirou seis e meio. Por miseráveis vinte e cinco décimos não passou. Na segunda época, janeiro de 1966, tirou seis e meio. De novo. E reprovou de novo. Aquilo doeu. Foi um dos maiores golpes desde que a mãe morreu. Sentia-se lixo. E mais. Na condição de birrepetente, não foi aceito para cursar a primeira série pela terceira vez na escola. Havia poucos ginásios na cidade. Eles não gostavam de repetentes. Menos ainda de birrepetentes. Não ia ser fácil achar um lugar.

A velha pediu para a filha:

“Procure uma escola para ele.”

A tia foi no Marista:

“Não aceitamos repetentes. Birrepetente de jeito nenhum.”

As escolas particulares não discutiam e as públicas refugavam. A tia estava levando porta na cara. Ele estava perdido. O ginásio estadual menos conceituado na cidade era o João XXIII, da Vila Operária. Sobrou ele. Para onde iam os alunos maus e ruins. A tia disse em tom de angustia, como se ele estivesse indo para um reformatório:

“Vou ter de pedir vaga no João XXIII.”

Ninguém queria filho no João XXIII a não ser claro os pais de alunos que moravam perto da escola. A tia foi no ginásio e saiu de lá mais envergonhada do que entrou:

“Se é birrepetente e a senhora bate em nossa porta é que ele é um dos elementos mais nocivos da cidade.”

A tia corou. E não disse nada porque o diretor emendou:

“Eu não quero ele aqui.”

A tia voltou para casa e anunciou para a velha:

“O diretor do João XXIII disse que ele é um dos elementos mais nocivos da cidade.”

“Mas ele arrumou uma vaga?”

“Disse que não quer ele por lá.”

Ele foi refugado por todas as escolas. A velha olhou com cara de piedade e de quem pensava:

“O que eu vou fazer com este garoto?”

A velha não sabia. Ele reuniu outros elementos nocivos da cidade que eram birrepetentes e juntos foram ao Grupo Escolar Vital Brasil que estava cogitando abrir turmas experimentais para o ginásio. Faltavam alunos. E foi assim que em 1966 todos os elementos nocivos da cidade reprovados mais de uma vez nas primeira e segunda séries do ginásio foram para lá. A química era explosiva. Nenhum tinha condição de apresentar uma carta de recomendação. Ou atestado de boa conduta escolar. No entanto, as previsões pessimistas não foram concretizadas. A maioria foi bem, não deu trabalho para os professores e foi aprovada. A experiência deu certo e o Vital Brasil virou ginásio. Quando o ano terminou, finalmente ele pode anunciar.

“Passei de ano.”

A velha nem comemorou:

“Até que enfim!”

A partir daquele ano ele ficou responsável por sua vida escolar. O que incluía se preocupar em estudar, tirar notas boas e não arrumar confusão com os professores. Estava ficando rapaz. E não ficava bem para um rapaz sair por aí com fama de um dos mais nocivos da cidade. As garotas não gostavam de rapazes nocivos e eles gostavam de garotas. Elas não iam se adaptar. Eles teriam de fazer isso. No ano seguinte, voltou para o ginásio de onde saira birrepetente. Na condição de aprovado para a segunda série. O diretor era outro, a ficha era outra e as preocupações também. Voltou sozinho. O demais elementos nocivos da cidade foram cada um para um lado. E com exceção de um encontro casual no cinema ou na rua, não se viram mais.

 

Written by edilsonpereira