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Então tive a ideia de tomar um vinho. Era por volta das 16 horas. Enquanto tomava o vinho, aceitei o convite de minha tia para comer algo antes de viajar. Eu me esqueci de um detalhe: minha tia tem o hábito de deixar as coisas congeladas na geladeira por vários dias, longas semanas e até alguns meses. Desconfio que procurando com jeito, ela vai encontrar algum negócio do século passado.

Alguém pode dizer:

“Mas ela é maluca!”

Não é questão de maluquice. Ela vai fazer noventa anos daqui a quarenta dias. E nesta idade a pessoa perde um pouco a noção do tempo. Ela pegou uma carne que parecia um pedaço congelado de mamute e fez um ensopado. Eu fui para a varanda terminar o vinho. Quando ela terminou o ensopado e colocou na mesa, eu achei que a coreografia estava boa. Aquilo estava com jeito de ter ficado gostoso. Talvez fosse o efeito da presença de algumas bactérias pré-históricas. Mas o diacho é que sentei e comi o negócio. E repeti o prato. E voltei para a varanda decidido a esperar as horas passar sem ansiedade. Ledo engano. Não demorou para eu sentir um troço estranho: cólicas que pareciam lanças incendiárias tentando abrir um buraco na minha barriga. Um sal de frutas pode ser um bom remédio, mas ele tem a mesma eficácia nestes casos quanto um barco no meio de um tsunami. Eu apelei feio: tomei meio vidro de leite de magnésia. E esperei o resultado. E quando ele se manifestou corri para o banheiro. Por fim, perto das 19 horas, eu vencera o desconforto e desalojei de meu estômago até os maus pensamentos, se é que eles tiveram a péssima ideia de se esconder lá.

Minha tia perguntou:

“Melhorou?”

Balancei a cabeça num movimento positivo, mas sem responder. A tática do leite de magnésia deu resultado. Tratei de descansar e perto das 23 horas chamei um táxi. Quando eu cheguei à rodoviária, peguei o ônibus de dois pavimentos, um inferior e outro superior e sentei na poltrona número dois, na primeira fila do pavimento superior e que oferece visão panorâmica da viagem, inútil quando a viagem é noturna. Eu tirei os sapatos e não tinha certeza de que a viagem seria tranquila. Ainda estava meio abalado com a indisposição de horas atrás. O banco ao meu lado estava vago. Melhor. Para minha surpresa, assim que o ônibus partiu eu caí no sono. Acordei perto das 5 horas da madrugada. Acordei porque tinha uma perna de mulher bem perto de meu rosto. Era uma bela coxa que tentava ir para o meu lado esquerdo, enquanto o resto do corpo estava no lado direito. Ela veio de um banco dos fundos e quando acordei a dona da perna tentava ocupar o lugar vago ao meu lado. Como eu estava entre ela e o banco, para não me acordar ela teve a ideia de passar sobre mim. E como acordei enquanto ela tentava fazer isto, eu estava com aquele par de coxas roliças e nuas a três dedos do meu rosto. Como as coxas tinham boa aparência, olhei para ver de quem eram. Eram de uma loira de cabelos longos, de corpo até bonito, embora meio volumoso. Eu me surpreendi com a roupa da moça. Ela usava uma espécie de vestido preto parecido com camisola preta, de tecido fino. Ela me olhou de cima para baixo e disse:

“Desculpe. É que faz um ano que eu não vejo a minha mãe.”

A frase não fazia sentido porque ela não ia conseguir ver a mãe através da janela do ônibus para onde aparentemente se movimentava. Ela fez um movimento e a perna roçou o meu braço: era rija, viscosa e fria, porque o ar-condicionado do ônibus estava num ponto de fazer esquimó bater os dentes. Pensei:

“Será que estou tendo algum pesadelo?”

Por que a dona usava traje sumário dentro da geladeira em que se transformou o ônibus? Fiquei quieto. A dona sentou ao meu lado e disse que se chamava Genilda Eugênia de Bragança.

Ela explicou:

“Eu sou bailarina e danço tango, sabe?”

Não sabia. A dona fez gesto com o traseiro e disse:

“Acho que sentei em cima de um negócio duro.”

Eu pedi para ela se levantar. Ela perguntou:

“O senhor vai passar a mão?”

Eu disse que não tinha intenção, que ia pegar a minha calçadeira que deixei no banco ao lado porque ia precisar dela na hora de calçar o par de sapatos e ela tinha acabado de sentar em cima dela. Ela olhou a calçadeira que eu fiquei segurando com as duas mãos. De repente, ela jogou o corpo sobre mim, enquanto a sua cabeça se inclinava na direção oposta.

Eu pensei:

“Quais as intenções desta dona?”

Ela se virara para abrir a cortina da janela no ônibus e ver onde estávamos. O tempo estava nublado e ela não ficou sabendo.

Ela perguntou:

“Ainda estamos longe, não é mesmo?”

Eu não tinha a mínima ideia, mas disse que sim, estávamos longe. Procurei dormir novamente e se não conseguisse ia fingir que estava dormindo. E foi o que eu fiz. Quando chegamos em Curitiba, tratei de cair fora. A moça me seguiu e ficou parada no terminal olhando para os lados. Aí ela disse:

“Mamãe, eu voltei!”

Sim, mãe, a Genilda voltou. A mãe abriu os braços:

“Minha filha, ainda bem que você voltou.”

Se combinassem não seria perfeito. A mãe estava ali para recebê-la de braços abertos numa manhã fria e chuvosa. E eu também me sentia vencedor porque chegamos eu e meu estômago com muitos planos. O principal era procurar um médico.

Publicado originalmente na Tribuna do Paraná no dia 1 de janeiro de 2015.

Written by edilsonpereira