Com dezessete ou dezoito anos eu li um livro do Leon Trotski e passei a ter visão crítica dos rumos da Revolução de Outubro. Isto aconteceu em 1970. O livro me foi apresentado pelo amigo Tadeu Moacir Lima, que em suas andanças pelo Rio e São Paulo tinha virado trotsquista por uns tempos. A partir de então passei a ter uma  visão crítica do stalinismo que era uma deformidade e não solução revolucionária e representado no Brasil pelos PCs, o Partidão e o PCdoB, além de outras agremiações menores. Por isso quando cheguei em São Paulo em 1978, em plena efervescência da abertura democrática, meus primeiros contatos foram trotsquistas. Fui parar na redação do Versus, jornal criado pelo Marcos Faerman e que caiu nas mãos do PST (Partido Socialista dos Trabalhadores, de inspiração trotsquista e influência argentina).

O PST acabou dando origem à Convergência Socialista, que eu achava bagunçada. Para se ter ideia conheci três caras do Comitê Central, um deles estudava comigo na Cásper Libero e além de falar para todo mundo que era do CC (normalmente, por questão de segurança, os caras do CC são muito discretos, quando não ficam escondidos) ele ainda me chamou para entrar para a organização, acenando com a possibilidade de promissora promoção para o Comitê Central em pouco tempo. Achei absurdo. O cara se chamava Jeremias, era bacana, mas maluco. Ia para a escola com enorme chapéu mexicano e às vezes com poncho, o que não era raro naqueles anos. Discrição zero. Ele alegou que o CC tinha 45 membros e sempre tinha gente entrando e saindo e que as minhas possibilidades de ascensão na carreira revolucionária eram grandes, por ter na época 26 anos, ser jornalista e trabalhar a Agência Folhas.

Achei a avaliação rala e quando o milagre é grande o santo desconfia. Acabei entrando para a OSI, também trotsquista, que era ligada a OCI francesa. E talvez com um pessoal mais doido ainda, mas que se levava muito a sério, gostava de rock roll e principalmente de vinhos e boa mesa. Boa parte gente culta, jovens filhos da classe média endinheirada. A questão da boa mesa e cultura foi fundamental para minha opção. Entrei na Ó (era assim que chamávamos, Ó de Organização) no calor da greve dos jornalistas de 1979. Quase todo mundo tinha identidade com organização de esquerda, a maioria com o velho partidão, cujos simpatizantes dominavam o sindicato.

Embora a gente não fosse exatamente Libelu (Liberdade e Luta), que era a tendência estudantil da organização (Ó), todos os militantes da OSI eram conhecidos por libelus. Ser libelu era uma coisa híbrida. Havia um componente charmoso e outro lunático. Vender o jornal O Trabalho era mais difícil que encontrar vida em Marte. O pessoal do partidão ficava apavorado com os libelus. Parecia que tinham medo de se contaminar com nosso esquerdismo. Eu pertencia à célula de um sujeito que era meu amigo e com quem trabalhava na Agência Folhas. Ele veio a ser anos depois por longo tempo diretor de redação de uma prestigiosa revista nacional. Eu adorava as reuniões de quinta-feira em sua casa no Paraíso (o pai era médico e deixou para ele uma charmosa casa numa rua cheia de árvores e se mudou para um apartamento próximo).

A mulher dele, depois das reuniões, nos regalava com almoço que se não era sofisticado, era delicioso. E a conversa era boa. Eu estava ali, mas achava tudo aquilo um saco. Muito juvenil. Mas também não podia me dar ao luxo de me isolar no meio da selva de pedras (como diria Manoel Cabral, jornalista de Maringá). No primeiro dia de revolucionário descobri que tinha que ter codinome. Ninguém podia me chamar de Edilson durante as reuniões nas quais não tinha ninguém além da gente. Aquilo foi tão irreal que me pegou de surpresa e para minha surpresa até hoje eu disse o nome de meu pai, com o qual nunca me relacionei, quer dizer, depois de um ano de idade quando sai de casa (e fui para a casa de minha vó onde fui criado).

Eu disse: “Julio”. O secretário da célula protestou: “Julio não pode, porque já tem”. Eu insisti: “Então Julio Cesar!”. O cara protestou: “Julio Cesar é nome de imperador romano”. Eu bati o pé: “Melhor ainda”. E virei revolucionário com nome de imperador romano. O problema destas organizações é que você fala, dá opinião e palpites, mas no final vale o que os bacanas do Comitê Central decidem. Eu sai da OSI porque um dia quis dar palpite. Achei que o pessoal tava fora da realidade. Parecia estar em outro mundo. “Nós temos que estar onde os operários estão. E hoje eles estão no ABC organizando o Partido dos Trabalhadores. Temos que entrar no partido para dar a ele uma direção revolucionária”. Falei bonito.

O secretário anotou com desdém o que eu disse, levou para o CC e na semana seguinte tinha o diagnóstico: o PT era um subproduto da burguesia, eu estava equivocado e a gente (quase uns gatos pingados) tinha que levar a sociedade para a revolução sem o PT. Achei bobagem, mas fiquei quieto. Um mês e meio depois o secretário apareceu com cara de cuia e disse que o pessoal da OCI em Paris estava puto com o CC da OSI no Brasil, porque tava na cara que naquele momento a organização do PT era a única coisa que envolvia os trabalhadores. E mandou todo mundo largar de ser besta e entrar o mais rapidinho no partido. O secretário olhou pra mim desconfiado, mas eu não disse nada. Na semana seguinte não fui mais. Eu estava certo e o pessoal do CC errado. Eu não ia ficar numa organização em que o pessoal não sabia o que estava fazendo. E por alguns anos resolvi ser anarquista. Achei que combinava mais. Claro que deixei de ser o revolucionário com nome de imperador romano.

Written by edilsonpereira