Fiquei surpreso com A Balada de Buster Scruggs, faroeste americano de 2018 dirigido, escrito e produzido pelos irmãos Joel Coen e Ethan Coen, baseado nas obras All Gold Canyon, de Jack London e The Gal Who Got Rattled, de Stewart Edward White. O filme tem seis episódios distintos, saiu pela Netflix e fez parte de minha rotina que chamo de Cine Quarentena. Vejo média de dois a três filmes por dia. Não teria visto Buster Scruggs não fosse algo extraordinário acontecer, como aconteceu. A pandemia do Coronavírus que exilou em casa quem tem juízo.

Tudo bem. Mas os Irmãos Cohen são figuras carimbadas e Jack London é grande escritor. Qual o problema com o filme? O problema foi que vi o ano passado um trecho do primeiro episódio sobre um fora da lei cantor, gozador e orgulhoso de seu talento, chamado Buster Scruggs (interpretado por Tim Blake Nelson). Como o sujeito dá nome ao filme achei que o filme inteiro fosse na base do esculacho. Porque o cara é um escracho, deboche a tudo que se fez no cinema, como diz o Jair, no tocante a faroeste. Como tenho todo o tempo do mundo, vi e me diverti. E achei que ia me divertir mais.

No segundo episódio a coisa muda. A começar pela fotografia exuberante e do perplexo ladrão de banco (interpretado por James Franco) que se dá mal ao tentar levar grana de um banco solitário na vastidão do Velho Oeste. Um banco perdido no meio do nada. Moleza, deve ter pensado o ladrão. Ainda mais que só tinha um funcionário. Um velho brincalhão. Mas o ladrão se ferra. O velhinho é esperto, sabe usar a espingarda e desenvolveu engenhoso sistema de proteção física com base em panelas amarradas ao corpo.

Absurdo. O ladrão acorda em cima de seu cavalo com uma corda com o laço no pescoço e outra ponta amarrada num galho de árvore seca. Ele escapa da forca por inesperado e inacreditável acontecimento. E mais surpreendente ainda: acaba preso de novo e condenado à forca, desta vez injustamente. É uma tese existencialista. O cara está no cadafalso com outros malfeitores e ao ver um condenado com cara de malvado ao seu lado chorar como criança, indaga com ironia quase filosófica: “É a sua primeira vez, não é?” Era. E também a última.

Se o segundo epísódio não teve o humor debochado do primeiro, o terceiro bate pesado. É a história de um empresário ambulante (interpretado por Liam Neeson) e de um artista deficiente físico (interpretado por Harry Melling) que viajam de cidade em cidade apresentando pequenos recitais literários em troca de moedas. Numa das primeiras cenas, o empresário diz algo assim: “Eu encontrei ele numa rua de Londres e achei que tinha talento”. O deficiente não tinha braços e nem pernas. Ele dependia do empresário para tudo, até para comer.

Na primeira apresentação, o espetáculo é visto por muitas pessoas, que dão muitas moedas. Muitos espetáculos são apresentados e cada vez mais o público é menor e a irritação do empresário maior. Até numa cidade o empresário ver outro espetáculo com grande número de pessoas enquanto o dele apenas por três pessoas. Ele vai conferir de que se trata. É uma galinha que faz cálculos. Alguém na plateia sugere uma operação e a galinha aponta com o bico o resultado. A galera vibra. O empresário percebe que ali tem algo mais interessante que o espetáculo dele e compra a galinha do concorrente.

Mas aí tem um problema. O que fazer com o artista sem pernas e braços se a galinha virou a estrela? O empresário pensa e ao passar por um rio acha que encontrou a solução. Pega uma pedra para ver se o rio é fundo. E como é fundo, ele joga o deficiente físico no rio. Sem braços e sem pernas não pode nadar. E morre. Na última cena o empresário sorri macabro e na sua carroça está apenas a galinha. É impossível não observar: “Esta é a essência de todo capitalista”. Este episódio é uma metáfora cruel do capitalismo

Nesta pandemia temos incontáveis exemplos. O capitalista não se preocupa com vidas, trabalhadores ou planeta. Pensa em seu negócio e nos lucros. Nada mais. O quarto epísódio tem Tom Waits no papel de um velho mineiro que encontra um veio de ouro numa vastidão. O quinto episódio tem forte densidade dramática e final inesperado. É sobre a errática jornada de Alice (interpretada por Zoe Kazan), que perde o irmão numa caravana para o Oregon, tem que se livrar de um cachorro irritante chamado Presidente Pierce e se envolve num promissor romance com o vaqueiro Billy (interpetado por Bill Heck), guia da caravana.

Quando a gente espera que tudo vai terminar num happy end, acontece o desfecho digno dos contos existencialistas de Jean-Paul Sartre. O último episódio tem a leveza do primeiro, embora sem o mesmo humor. Cinco pessoas viajam numa diligência e se envolvem em discussões filosóficas sobre a existência humana como estivessem num café de Paris. Na parte de cima da carruagem o cadáver de um malfeitor assassinado por dois caçadores de recompensa é promessa de boa grana. Valeu a pena ver o filme!

Written by edilsonpereira