boneca

O nome da novela é “Breakfast at Tiffany’s”. O nome do filme dirigido por Blake Edwards e lançado em novembro de 1961 no Brasil também é “Breakfast at Tiffany’s”. No Brasil, o filme ganhou o título de “Bonequinha de Luxo”. E quando a novela foi traduzida ela também ficou com este nome. Faz sentido. A tradução bem literal do título original seria algo como “Café da manhã na frente da Tiffany’s”. Sem graça e longo demais. Sem contar que a personagem central, Holly Golightly, interpretada muito bem por Audrey Hepburn, talvez em seu melhor papel no cinema, era o que veio a ser chamado muitos anos depois de garota de programa. Ou, para sermos mais objetivos, uma prostituta.

Se bem que no caso dela empenhada em casar-se com um milionário. Inocente, ambiciosa e fútil, ela tem tiradas simplesmente fantásticas. A história original é de Truman Capote. Uma de suas primeiras. E antes, claro, de escrever o clássico “A sangue frio” (depois deste livro não escreveu mais nada que prestasse). A novela “Breakfast at Tiffany’s” saltou de um lugar acolhedor entre dezenas de títulos da literatura americana para um lugar de destaque. Graças ao cinema. Que projetou autor e história para milhões. Acabei de reler o livro e vi o filme dezenas de vezes. Edwards fez uma obra-prima romântica utilizando recursos como roupas desenhadas por Hubert de Givenchy e deu ainda mais amplitude a um clássico da canção americana, “Moon River”. Que, por sinal, não está no livro. As canções que Holly canta tem mais a ver com as de Woody Guthrie. Aliás, cantor de sucesso na época em que a história se passa originalmente, primeira metade dos anos 40. Em plena guerra.

George Peppard (um de meus atores faroritos na adolesência) está perfeito no papel de Paul Varjak, um sujeito que quer ser escritor de sucesso, mas continua insitindo porque é sustentado por uma ricaça chamada Mrs. Failenson, interpretada por Patrícia Neal. Uma visita dela rende 50 dólares. Uma história que custou alguns dias e foi vendida milagrosamente para uma revista rende 15 dólares. Não dá para viver assim. Mickey Rooney no papel de Sr. Yunioshi, está muito engraçado. Tudo bem. Filme bacana, livro bacana. Poucas vezes o cinema usou tanto de um livro quanto em “Breakfast at Tiffany’s”. Está quase tudo lá. É impressionante. Chega a ser espantoso porque o cinema é o grande traidor da literatura. Paga bem por direitos autorais, mas faz o que bem entende.

Mas, como no caso do escorpião, o cinema teria que trair a história original em alguma coisa. No livro Holly é bissexual. Pelo menos deixa bem clara a sua bissexualidade pelo menos uma vez. Não aparece isto no filme para não tirar o verniz romântico da história. E mais: no livro o escritor não tem nenhuma amante ricaça. Na realidade, o escritor é gay, baseado no próprio Truman Capote. E não fica com Holly no final da história, embora o gato abandonado se dê bem no final do livro e do filme. No filme o escritor é um garanhão. Romântico ainda por cima. Chuta a ricaça e fica com a garota romântica, encrenqueira e querida. Edwards fez a coisa certa. O filme é maravilhoso. E Capote também fez a coisa certa. A novela é maravilhosa. Acontece que cinema é cinema e literatura é outra coisa. É a obra dele da qual mais gosto, embora “A sangue frio” seja um clássico do jornalismo literário e coisa e tal. Também gosto do filme. Neste caso, o cinema traiu a obra literária para dar a ela uma amplitude que jamais teria se ficasse nas páginas do livro. Claro que o cinema está perdoado.

 

Written by edilsonpereira