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Três pessoas foram à exposição, além do artista – a mãe, o amigo e Angel Bermudez, que a todos abençoa com suas palavras gentis. Os quadros na parede eram o espelho do sofrimento do pintor, mas o que representariam exatamente? Ele explicava com paciência, as palavras saindo com dificuldade:

“Minha infância em Goiás. O meu avô. A fuligem na cozinha da palhoça.”

E suspirava:

“Essa fuligem me persegue até hoje.”

O amigo falou sobre o contraste cromático das manchas ferruginosas sobre as fuligens, produzindo uma textura áspera. O pintor respirou satisfeito com a observação. O amigo disse que as cores se harmonizavam entre elas, para agredir o espectador, chamá-lo para a realidade da tela e da vida. O pintor também gostou daquilo. Era mais ou menos o que desejava ouvir. Angel Bermudez, com longa experiência e frágil estatura, concordou em um sábio e significativo silêncio. Que expressava muito. Ele voltou seus olhinhos miúdos para a tela, cruzou os braços sobre a camisa verde com ramos amarelos e vermelhos em perfeita consonância com a calça de um branco imaculado e os mocassins claros. E ungiu o seu veredicto:

“É um belo trabalho.”

O pintor contou um segredo, para o amigo:

“Sou o maior do Paraná. O mais moderno. Se invoco, conquisto São Paulo numa tacada.”

Quando chegou era um anônimo do interior, inocente, puro e besta. Agora, não. Quando chegou, eram quatrocentos procurando um lugar ao sol. Ele acompanhou os grandes; humilde, só ouviu. Fez oficinas. Aprendeu. Um a um, os outros saíram do caminho. Um para o gabinete do secretário, outro virou professor, um morreu de desgosto, e outro foi para Nova York lavar pratos, um ganha dinheiro em uma churrascaria de Acapulco e outro é hippie na Ilha do Mel. A longa lista inteira na memória. Sem contar o que foi para a propaganda, o que casou e pensou no leite das crianças, além, claro, do que ficou louco.

“O que ficou louco, eu já falei?”

“Já.”

A que foi para o interior, ninguém se lembra. O que casou com a moça rica e perdeu o talento para o conforto, nunca mais pintou.

“E o que abriu uma galeria?”

Era capaz de contar, um a um, os cadáveres à sua frente, enquanto avançou, humilde e venturoso, para ser o rei da tela. Seus olhos brilham como o Dom Quixote:

“Eu quero respeito. Os miseráveis que mataram o Bakun, não vão me matar. Eu não morro, eu mato.”

Ele bufava. Angel Bermudez voltou de sua inspeção e se despediu. Entrou no automóvel conversível, o cadilac fantasma saiu no meio da noite levando o cardeal dos críticos da cidade. A mãe do pintor disse que ia embora, tinha de acordar cedo para pegar o ônibus e dar aulas numa escola do Boqueirão:

“Te cuida, filho!”

Ficou o amigo. Os quadros. E ele:

“Isto é um bom trabalho. É arte. Eu não sou comercial. Faço arte pura.”

Parecia satisfeito consigo. No dia seguinte tinha de entregar um quadro para uma grã-fina do Batel. Ela ia ficar com ele uns tempos, se combinasse com a parede, com os móveis e despertasse a atenção das amigas, dos amigos, talvez comprasse.

“O duro é isso, a incerteza.”

O amigo observou que surgem todos os anos novos pintores, jovens, criativos, com novas ideias. O artista respirou fundo. O ar pesou como chumbo nos pulmões. E ele pensou, os dentes cerrados, os olhos em chamas. Apesar do silêncio, os quadros e o amigo ouvem os mais íntimos pensamentos do pintor:

“Não adianta, eu mato todos eles.”

Não matou quatrocentos? O que seriam mais dez ou cem? Ele é o rei da tela. Ele sabe disso. Vai resistir até o fim dos tempos.

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 30 de abril de 2004.

Written by edilsonpereira