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Teodoro ao fazer um breve balanço de nossas vidas, disse, dia desses, num café em Curitiba:

“No fundo, somos todos herdeiros do Severino.”

Acho que queria dizer, pessoas sem rumo, tentando encontrar um porto seguro. Severino foi um sujeito feio e triste de Aquidaban que veio para a capital no êxodo motivado pela vitória de José Richa, em 1982. Não havia função para ele e o deixaram no almoxarifado da repartição. E lá o esqueceram. O certo é que com o fim daquele governo, Severino sobreviveu na cidade por conta de hábitos frugais e da condição de homem quase invisível no almoxarifado, carimbando pedidos de produtos de limpeza. O inspetor revelou que a secura dos hábitos e a escassez dos gestos se deviam ao esforço para economizar o pouco que ganhava e mandar o dinheiro para os pais em Aquidaban. A vida de Severino seria esta não fossem dois acontecimentos inusitados.

O primeiro em um dia frio, quando entrou na repartição com um vistoso e elegante sobretudo negro. Se entrasse nu não causaria maior assombro. Foi como o governador invadisse para fiscalizar o lento serviço. Um alvoroço. Todos empalideceram e o olharam com misto de assombro e inveja. Onde arrumou dinheiro para um sobretudo importado?

“Italiano”, sussurrou o inspetor.

“Italiano”, sussurrou um colega para o outro, até o último deles.

Mais uma vez o inspetor esclareceu a questão. Em 1997, quando as feiras de caridade abriram o país para as roupas usadas de europeus serem vendidas em benefício de instituições de caridade, alguns sujeitos vislumbraram um negócio: desviar as peças boas e vendê-las mais caro. As primeiras lojas eram precárias e depois aquilo virou um negócio, como outro. Mas antes de os preços se elevarem ainda mais, Severino passou diante de uma dessas lojas, viu o sobretudo e o comprou.

Escassas economias escorreram pelos seus dedos magros, mas finalmente ele encontrara algo decente para se proteger na fria cidade do sul. Foi no dia em que usou o sobretudo que Lorena levantou os olhos, sorriu e disse:

“Que elegância, Severino”.

O sorriso foi a perdição da vida do homem de Aquidaban. Se não se achava digno de nenhuma mulher, naquele dia pensou diferente. O sorriso de Lorena deu origem ao segundo alvoroço. Nos dias e semanas seguintes, o homem sonhou com o sorriso, consumiu-se no desejo e não viu remédio para o tormento. Um não, seria doloroso; um sim, humilhante. Como usar em um cinema os recursos que mandava para os pais? Nem atrevia pensar. E, assim, Severino perdeu o apetite. E, depois, o sono. E, apesar do sobretudo, teve frio e tossiu. Sua expressão ficou plúmbea e os olhos sem vida. Um dia, antes de o expediente encerrar, Severino colocou o sobretudo, deixou o almoxarifado, atravessou todas as mesas e se aproximou de Lorena. Ele disse num fio de voz:

“Você pode me dar um abraço?”

O estranho pedido parou a repartição. Os colegas olharam em silêncio:

“O que ela fará?”

Lorena olhou, sorriu e se levantou. E deu um abraço em Severino. Foi assim. Ela o abraçou e ele desabou sobre a moça.

Ela disse:

“Me ajudem!”

O inspetor correu, amparou Severino e o arrastou para um canto, onde ficou sentado, com as pernas espichadas e o queixo dobrado sobre o peito. O inspetor disse como a coisa mais natural do mundo:

“É gente, ele está morto.”

Lorena gritou e recuou pálida para sua mesa. A morte de Severino teve uma consequncia funesta. Por acreditar que a alma de Severino ficou em seu corpo na hora do abraço, Lorena tornou-se tão triste e feia quanto ele. Mas teve uma vantagem: os colegas olhavam para ela e não sentiam falta de Severino.

Narrativa publicada em O Estado do Paraná no dia 20 de outubro de 2004.

Written by edilsonpereira