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O único que talvez pudesse explicar o que estava acontecendo fosse o amigo Bitous que tinha passado por isso. Mas depois que o ano terminou, a turma de 65 se dissipou. Ele soube que Bitous assim que o ano de 66 começou foi embora para o Rio de Janeiro, de mudança com os pais. Agora ele recordava a conversa numa tarde particularmente quente, quando perguntou ao amigo:

“Por que você vai tanto na zona?”

Bitous riu. Um riso triste. Ele parecia estar com herpes nos lábios inchados, estava mais magro e era a imagem consumida de um libertino que se diluia na luxuria.

Ele respondeu:

“Você devia ficar preocupado com você. Quem demora conhecer mulher fica louco. Eu só melhorei da cabeça depois que fui na zona.”

Ele ficou preocupado. Aquela resposta deixou-o intrigado. Ele perguntou:

“Você acha mesmo isso?”

“Eu acho. Eu exagero. Mas você também. Se não arrumar uma namorada logo vai ficar louco.”

“Eu queria. Mas as que eu quero não me quer. E as que me querem eu deixo ir embora.”

Bitous riu:

“Mulher é tudo igual. Não fique escolhendo muito. O principal é você aprender a jogar o jogo. Quando apender, tudo fica mais fácil.”

Bitous era brincalhão. Mas em alguma coisa estava certo. Ele não deu importância para o comentário. Passados meses, ele agora se lembrava da conversa. Estava ficando louco. Ele tentou resolver o problema em casa. Ele chegou para a velha e perguntou:

“Eu ando ouvindo um zumbido que não para nunca. É normal?”

A velha respondeu:

“Não é normal. Você devia lavar a orelha direito. Isto deve ser sujeira.”

Ele lavou a orelha e o ouvido. Mas não era sujeira. O zumbido dentro da cabeça parecia um interminável canto de cigarra. Este problema diurno já era suficiente para tirar a serenidade de qualquer um. Mas havia outro problema. Os sonhos. Que não chegavam a ser pesadelos, mas não eram agradáveis. Ele sonhava que caía num grande buraco escuro e sem fundo e tudo terminava quando ele acordava suado no meio da noite. Outro sonho era o de que fugia de alguém, às vezes um assassino e quando ia ser morto, ele acordava. Depois começaram a aparecer outros sonhos sufocantes. Ele entrava por um corredor que se afunilava e as portas atrás dele iam se fechando. Às vezes era uma escada pela qual ele subia até chegar num lugar estreito no alto e sem poder voltar. Ele nem sonhava em contar os seus sonhos para a velha porque adivinhava o que ela ia responder:

“São os gibis que você anda lendo. Não sei porque não larga isso. Esta mania de ir ao cinema todo domingo também está te fazendo mal.”

Por isso que sentia saudades do amigo Bitous. Ele poderia explicar alguma coisa já que também passou por isso. E sem contar que com ele teria coragem de ir na zona. Ele pelo menos conhecia o caminho e as garotas. Ele estava até disposto a romper a resistência às prostitutas. Era melhor correr o risco de pegar uma doença venérea do que ficar louco. Não tinha muita escolha. Achava agora que as meretrizes tinham uma importante função terapeutica social. Impedir que os rapazes ficassem loucos. Mas ele não podia ir sozinho na zona. Estava preocupado com o zumbido no ouvido e com os sonhos porque sua vida estava virando do avesso. Ele agora temia dormir à noite por causa dos sonhos e temia o dia por causa dos zumbidos.

“O que eu faço?”

Pior era isso. Ele não podia contar para o primo mais velho. Era capaz de ele contar para tio Setembrino que o neto de sua mãe estava ficando louco. E o tio era bem capaz de pedir para ela interná-lo no sanatório. Numa noite, ele olhava o teto do quarto com medo de dormir e ter sonhos ruins. E foi manipulando o pinto sem interesse até que aconteceu aquilo. Uma explosão de energia. A primeira coisa que ele pensou foi:

“Isto deve ser pecado!”

Mas foi uma explosão agradável. E depois ele adormeceu e mergulhou num sono profundo. E desta vez teve outro sonho, que nunca sonhara. Estava no bosque e uma moça bonita de cabelos negros longos apareceu na sua frente. Era uma moça misteriosa e tinha expressão grave no rosto. Parecia alguém que havia morrido. Porque não emanava nenhum sentimento. Ela disse olhando para baixo como se ele estivesse no chão:

“Você tem que aprender a jogar o jogo.”

O sonho terminou com ela indo embora, como numa cena final de filme. Na manhã seguinte ele acordou com um sentimento de culpa, temor de ter feito coisa errada, mas também com uma sensação de relaxamento. A primeira coisa que percebeu foi que não havia mais zumbidos de cigarras no ouvido. Nas noites seguintes, os sonhos ruins não desapareceram de todo, mas eram agora raros.

 

Written by edilsonpereira